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Cobrir a Assembleia Geral da ONU (#UNGA) é uma das experiências mais intensas para um intérprete de conferência. Com a bagagem de seis anos traduzindo o evento na TV, a nossa associada Denise Bobadilha reuniu observações fascinantes sobre os bastidores dessa cobertura. Confira:
Todo mundo assiste ao discurso do Brasil (que abre a Reunião Geral todos os anos por tradição) e o dos EUA, que é o segundo por ser anfitrião da sede da ONU. Mas, nos demais, a plenária fica quase vazia, não por má vontade, mas porque a UNGA é feita de dezenas de outras reuniões com diplomatas e chefes de Estado.
O sistema da ONU transmite todos os discursos nos seis idiomas oficiais da organização (inglês, russo, francês, espanhol, mandarim e árabe) tanto no sistema interno, com receptores, como no site oficial.
A interpretação oficial é feita pelos intérpretes da ONU ou por intérpretes dos chefes de Estado (Lula, por exemplo, trabalha com o intérprete Sérgio Teixeira desde os anos 80).
Alguns chefes de Estado preferem discursar em inglês, caso de Volodymyr Zelenskyi (Ucrânia) e Benjamin Netanyahu (Israel), entre muitos outros. Mas, muitas vezes, sotaque e falta de fluência para dar cadência ao discurso tornam-no confuso. Minha opinião: melhor contar com o intérprete, como Lula e Milei fazem.
Como intérprete, eu fico abismada com o talento dos colegas na ONU que ouço no conforto do meu fone. Passam segurança, discurso bem construído, soluções idiomáticas. Percebo também que, em 90% das vezes, eles têm acesso ao discurso anteriormente e assim conseguem preparar uma interpretação impecável. Não é o nosso caso aqui, ou daqueles que traduzem para a imprensa em todo mundo, que têm de se virar ao vivo e sem ler antes (ossos do ofício e normal).
Às vezes ouço coisas que só a audição muito apurada do intérprete consegue perceber: um mexer na cadeira, um papel sendo movido, um gole de água, uma pausa quando o intérprete percebe que avançou num texto lido além do que estava sendo dito (com Irã, isso aconteceu muito) ou até um discreto suspiro pelo cansaço do esforço cognitivo extremo.
Valeu @denisebob por compartilhar sua expe
10 hours ago

Quem vê um intérprete trabalhando com fluidez na cabine dificilmente imagina a verdadeira "tempestade neuroquímica" que acontece por trás dos fones de ouvido.
Neurocientistas da Universidade de Genebra, na Suíça, colocaram 50 participantes multilíngues em um aparelho de Ressonância Magnética Funcional e pediram que realizassem três tarefas: ouvir uma frase, repetir uma frase e fazer a interpretação simultânea de uma frase. Os resultados foram surpreendentes. Durante a interpretação, o núcleo caudado, estrutura cerebral profunda responsável pela tomada de decisões e pela coordenação de tarefas complexas, apresentava uma atividade muito mais intensa do que durante a escuta ou a repetição. O núcleo caudado não traduz palavras. Ele atua como um maestro de orquestra, coordenando múltiplas regiões cerebrais em tempo real: ouvir, compreender, reformular, falar e monitorar, tudo simultaneamente. Intérpretes não utilizam apenas mais capacidade cerebral; eles utilizam o cérebro de maneira diferente.
Essa ginástica mental contínua altera a densidade da massa cinzenta em regiões responsáveis pelo controle executivo, pela memória de curto prazo e pelo processamento auditivo. É a prova científica de que a precisão na cabine não nasce do acaso, mas de uma incrível plasticidade cerebral alimentada por anos de estudo, treino e prática profissional. Um estudo separado, realizado com EEG e publicado na revista *PLOS One*, revelou que os cérebros de intérpretes apresentam padrões de conectividade únicos, mesmo em repouso — uma hiperconectividade no lobo frontal que pessoas que não são intérpretes simplesmente não possuem. O cérebro do intérprete não é ativado apenas durante o trabalho; ele é permanentemente reconfigurado pela profissão.
O resultado? Uma mente treinada para filtrar ruídos, gerenciar o estresse e entregar conexões humanas perfeitas onde antes havia barreiras linguísticas.
fonte: https://speakrllc.com/
3 days ago

Assim como um grande diretor escolhe a lente, o ângulo e a luz para contar uma história, cada idioma enxerga a realidade sob uma perspectiva única.
A célebre frase do cineasta italiano Federico Fellini resume com perfeição o que vivemos diariamente na cabine: "Uma língua diferente é uma visão diferente da vida."
Aprender e dominar um idioma vai muito além de decorar regras gramaticais ou traduzir palavras equivalentes. É compreender a bagagem cultural, o humor, os silêncios e a sensibilidade de um povo.
Como intérpretes de conferência, nosso papel é justamente decodificar essa "visão de vida" em tempo real, permitindo que públicos de diferentes origens não apenas ouçam a tradução das palavras, mas sintam a verdadeira essência da mensagem.
E para você, qual idioma abriu a lente mais surpreendente sobre o mundo? Conta para a gente nos comentários! 👇
5 days ago




A cabine de interpretação pode parecer um ambiente isolado, mas a nossa trajetória profissional não precisa ser.
Ser um intérprete associado à APIC vai muito além de ter o seu nome em um guia de profissionais. Significa fazer parte ativamente da história e do desenvolvimento da interpretação de conferência no Brasil. É estar lado a lado com quem define os padrões de excelência técnica, ética e de condições de trabalho no nosso mercado.
Se você busca valorizar a sua história na profissão, ampliar a sua rede de contatos com colegas experientes e contar com a chancela da maior autoridade do setor no país, o seu lugar é aqui.
A associação está de portas abertas para novos talentos e profissionais experientes que compartilham do nosso amor pela precisão da linguagem e pelo respeito à categoria.
Acesse o nosso portal para entender as diferentes categorias de associação (como Associados Ativos, Agregados ou em Formação) e confira os documentos necessários para fazer a sua solicitação.
Estamos esperando por você!
👉 Estudante ou profissional da área? Una-se à comunidade que define os padrões de excelência da nossa profissão. Saiba como se associar em: https://apic.org.br/pt/associar-se/
#APIC #InterpretaçãoDeConferências #Intérpretes
1 week ago

Se existisse um uniforme oficial para a nossa categoria, essa camiseta com certeza estaria no topo da lista. Afinal, ser intérprete de conferência não é decorar o dicionário da primeira à última página. É entender o contexto, a estrutura da linguagem e as culturas envolvidas, além de ter agilidade cognitiva para conectar ideias em tempo real.
O dicionário traduz palavras isoladas. O intérprete traduz intenções, nuances, tom e conhecimento.
E você, quantas vezes já teve vontade de usar uma camiseta dessas no churrasco de família ou em uma reunião social? Conta para a gente nos comentários a pergunta mais inusitada que já te fizeram! 👇
#VidaDeIntérprete #Intérprete #memeIntérprete
1 week ago

Fora do universo da linguagem, quase ninguém sabe quem ela foi. Mas para os intérpretes de conferência, a francesa Marianne Lederer (1934–2026) é uma figura tão fundamental quanto Celso Furtado para os economistas ou Rui Barbosa para os advogados.
Em um belo texto publicado no LinkedIn, a nossa associada Beatriz Velloso homenageou Lederer, que faleceu este ano e foi coautora da célebre Théorie du Sens (Teoria Interpretativa da Tradução), desenvolvida no final dos anos 1960 ao lado de Danica Seleskovitch. A teoria revolucionou o nosso campo ao provar que interpretar não é apenas trocar palavras de um idioma para o outro, mas sim passar por três fases cognitivas: compreensão, desverbalização (o ato de se desapegar das palavras para reter apenas a representação mental do sentido) e reformulação. Tudo isso levando em conta o contexto, a intenção do orador, o estilo e o perfil da plateia.
Como ressaltou Beatriz em sua reflexão, esse processo descrito há quase 60 anos pelas pesquisadoras é justamente onde a inteligência artificial não consegue chegar: transportar o sentido humano. Entender frases isoladas ou calcular estatisticamente a palavra mais provável não substitui a compreensão das nuances, da cultura e das circunstâncias de um discurso.
Com uma trajetória genuinamente cosmopolita, Marianne Lederer nasceu na França, viveu na Áustria e na União Soviética, e passou longos períodos na Inglaterra e nos Estados Unidos. Foi intérprete de francês, alemão e inglês, além de professora universitária nas áreas de línguas estrangeiras, tradução e estudos tradutórios, uma das mentes que pavimentaram a formação da nossa profissão. Seu legado segue vivo em cada desverbalização que fazemos na cabine.
📝 Texto e reflexão original de autoria da nossa associada @beatrizvelloso, adaptado com autorização para as redes da APIC.
#APIC #InterpretaçãoDeConferência #MarianneLederer
2 weeks ago

Quem trabalha na cabine de tradução simultânea sabe que o maior perigo da nossa profissão é, muitas vezes, traduzir tudo "ao pé da letra". Mas e se a gente parasse para olhar a literalidade do nosso idioma de um jeito poético, absurdo e muito bem-humorado?
Nossa dica de leitura do mês é o livro "Aos Pés da Letra", de Gregório Duvivier.
Na obra, o autor faz uma verdadeira ginástica linguística. Ele pega expressões cotidianas que usamos no piloto automático e as reconstrói de forma literal, revelando o quanto a nossa comunicação é cheia de imagens surreais. O que significa, de verdade, "chover canivetes", "procurar pelo em ovo" ou "colocar a mão no fogo" por alguém?
Se você está procurando uma leitura leve, rápida, mas cheia de sensibilidade e inteligência sobre o poder das palavras, "Aos Pés da Letra" é a escolha perfeita para o seu próximo final de semana.
Quem aí já leu? Deixe sua opinião aqui nos comentários! 👇
#DicaDeLeituraAPIC #APIC
2 weeks ago





Se o ouvido é a principal ferramenta de trabalho de um intérprete, quando foi a última vez que você deu um descanso verdadeiro para o seu?
🎧 No calor da cabine, a nossa audição não é apenas um sentido passivo, mas um canal de processamento cognitivo de altíssima intensidade. Ficar exposto por horas a diferentes frequências de voz, ruídos de equipamentos eletrônicos e à própria pressão do ambiente pode sobrecarregar esse sistema, gerando a chamada fadiga auditiva: um desgaste silencioso que afeta diretamente o nosso desempenho e bem-estar. Arraste para o lado para entender os sinais de alerta que o seu corpo envia, as consequências na sua rotina e as melhores formas de proteger o seu maior ativo profissional!
É intérprete de conferências? Saiba como fazer parte da APIC: https://apic.org.br/pt/associar-se/
#FadigaAuditiva #Intérpretes #Intérprete #InterpretaçãoDeConferência
2 weeks ago

Dizer "sim" de prontidão para uma oportunidade é tentador, especialmente no início da carreira. Mas você sabe identificar quando uma proposta coloca em risco o seu profissionalismo e a sua saúde mental?
Hoje temos algumas dicas que são indispensáveis para quem está começando na profissão, e úteis também para os mais experientes. Elas foram compiladas pela AIIC.😉👇
Antes de aceitar um trabalho, pergunte a si mesmo:
- Você está disponível naquelas datas e horários?
- Você tem a combinação de idiomas certa?
- Você tem a experiência e o conhecimento técnico necessários para interpretar o assunto?
- As condições de trabalho estão de acordo com as normas profissionais e as condutas éticas preconizadas pela associação?
Preste atenção quando:
- A composição da equipe é inadequada – alguns idiomas não estão cobertos corretamente, o tamanho da equipe não corresponde à carga de trabalho, você teria de trabalhar sozinho na simultânea ou o organizador é evasivo quando você faz perguntas sobre outros membros da equipe;
- As condições de trabalho são inaceitáveis: os documentos preparatórios não serão fornecidos, o valor oferecido é muito menor que o praticado no mercado, não há ajuda de custo para trabalhar em outra cidade, não há distinção entre dias de trabalho e dias de viagem, as cabines não serão compatíveis com as normas ISO.
Como evitar surpresas desagradáveis?
Quando você está começando e ansioso por experiência, pode ser tentador aceitar qualquer oferta de trabalho. Fazendo as perguntas certas, você pode evitar situações desconfortáveis, como:
─ Fazer interpretação simultânea sozinho por um período superior a 60 minutos;
─ Ser solicitado a trabalhar de ou para uma língua que não faz parte de sua combinação de idiomas;
─ Trabalhar em cabines divididas por cortinas ou sem isolamento acústico adequado;
─ Trabalhar sem o apoio de técnicos no local;
─ Trabalhar sem cabine de interpretação, em um local improvisado como ao lado da mesa de som ou dos controles de iluminação, por exemplo.
fonte: aiic.org
#DicasAPIC #InterpretarÉHumano #Intérpretes
3 weeks ago








